sábado, 5 de setembro de 2026

Partida.

 Aguardo o café ficar pronto na cafeteira, muito embora hoje eu não precise dele.

Não dormi quase nada essa noite. Meus pensamentos dançavam numa valsa confusa.
Passeei pelas várias lembranças desses anos em que meu amor por ti deu direção à minha vida. Muito embora essa direção tenha mais a ver com longas esperas do que necessariamente com movimento. Assim como essa noite eu esperei o sono chegar, te esperava sempre sem ter a certeza de que viria.

Quando por fim desisti de encontrar o sono, abri a última gaveta do guarda-roupas, onde guardo a coleção mais improvável que alguém possa ter.
Ali estão as cartas que escrevi para ti ao longo desses anos. As cartas que eu mesma entreguei em suas mãos.

Tu fazia questão de lê-las quase sussurrando, sempre depois de me amar. E finalizava a leitura com um beijo na carta. Mas nenhuma delas te acompanhava quando chegava a hora de me deixar. Tu não podia levá-las e elas ficavam comigo.
Eu mesma escrevia, eu mesma te entregava e eu mesma tinha de guardá-las. Foi assim por 32 anos.

Não entendo por que aceitei guardá-las. Havia em mim o desejo de que tu as levasse alguma hora.
Por vezes tive vontade de dar fim a elas, mas nunca o fiz.

Foram elas que muitas vezes me fizeram companhia nos dias em que tu não vinha. Assim como nessa noite ingrata em que teu corpo está sendo velado em alguma funerária do Centro, em que o endereço não me importa. Minhas cartas não tinham permissão de te acompanhar até em casa, como não tenho eu permissão de dar-te um último adeus.

Por fim, sirvo-me do café mas não o bebo.

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